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Investigado por atentados em Porto Alegre foi preso por terrorismo no Chile em 2010

Um chileno de 29 anos, que está entre os investigados por atentados em Porto Alegre, chegou a ser preso e condenado a 10 anos no seu país de origem por crime de terrorismo. Por meio de uma pesquisa pelo nome do suspeito, que não será divulgado, a reportagem da RBS TV rastreou as acusações que pesam contra ele na Justiça chilena.

No grupo investigado pela Polícia Civil gaúcha, o chileno é apontado como responsável por ensinar e fabricar as bombas incendiárias instaladas em um carro da Polícia Civil, em veículos da Brigada Militar, na sede de um partido político e em um tanque de guerra do exército, que estava exposto em uma praça na Zona Leste de Porto Alegre.

Após o fato, o Exército decidiu retirar o tanque da praça. Em um livro apreendido, o grupo relata como foi a ação. “Abandonamos um artefato incendiário com um dispositivo de retardo sobre o tanque”, diz trecho.

O estrangeiro chegou ao Rio Grande do Sul há dois anos. Ainda no Chile, foi acusado pelo Fiscalia Regional Metropolitana Sur, o Ministério Público no país, por delitos de caráter terrorista. O caso ficou conhecido no país como “Caso Bombas”. Segundo as autoridades chilenas, o suspeito foi responsável por manipular e instalar artefatos explosivos e incendiários em várias instituições. Ele estaria envolvido com as ações desde 2006, como mostra o processo, que pode ser acessado no site do órgão.

Ele ficou preso preventivamente em uma cadeia de alta segurança na capital, Santiago do Chile. Sua condenação foi de 10 anos de prisão pelo terceiro tribunal de juízo de Santiago, por crimes de posse e uso de artefatos explosivos e de associação de terrorismo.

RBS TV questionou o Consulado Chileno, em Porto Alegre, sobre a atual situação jurídica do suspeito. Mas, segundo o órgão, esses dados são sigilosos e não podem ser fornecidos. A Polícia Civil acredita que o chileno não tenha saído do país pelas vias legais, e que também não esteja mais em Porto Alegre.

O delegado Paulo Cesar Jardim, que lidera as investigações, considera o chileno responsável por levar a prática de usar explosivos nas ações em Porto Alegre. “Foi ele quem trouxe esse conhecimento e, acima de tudo, trouxe a filosofia de destruir alvos específicos, como carros de polícia, sedes de partidos políticos, órgão militares, consulados e até igrejas. Ele que ensinou isso para o resto do grupo”, afirma Jardim.

A investigação sobre os ataques de grupos anarquistas em Porto Alegre corre em segredo de justiça. O inquérito deve ser concluído nos próximos dias e, segundo Paulo Cesar Jardim, os investigados vão ser indiciados.

“Nós temos uma formação de quadrilha. Nós temos homicídio, na forma tentada. Nós temos o aumento de pena por crime hediondo através do uso de explosivos. E uso de bombas incendiárias. E os danos materiais todos causados”, explica o delegado.

Além do chileno, a polícia ainda investiga uma boliviana e uma francesa, que moram e estudam no Brasil. A suspeita é de que elas sejam as mentoras dos livros atribuídos ao grupo.

Entenda mais

Todos os atos do grupo gaúcho, que se define como anarquista, estavam registrados em livros, publicados por um biblioteca, chamada de “Biblioteca do Kaos”, instalada em imóveis invadidos em Porto Alegre. Inicialmente, a biblioteca ficava em um prédio no bairro Cidade Baixa. Depois de despejados pela Justiça, se mudaram para um casarão, em uma escadaria no Centro da cidade. O local também havia sido invadido, e eles foram retirados pela Brigada Militar.

A polícia localizou esses livros, entre os quais um que se chamava “Cronologia Maldita”. A investigação da Polícia durou um ano e foi a base para a operação Érebo (segundo a mitologia grega, a personificação das trevas ou da escuridão), que cumpriu 10 mandados de busca e apreensão na última quarta-feira (25), na casa de jovens que se dizem anarquistas, além de ocupações e sedes dos grupos. A operação ocorreu em Porto Alegre e em Viamão.

Uma reportagem do Fantástico, veiculada no domingo (29), mostrou bastidores da investigação e vídeos exclusivos de alguns atentados em Porto Alegre.

A investigação começou com a explosão de uma das bombas incendiárias na frente da 1º Delegacia de Polícia Civil, no Centro de Porto Alegre, no dia 24 de setembro de 2016. O artefato incendiário foi detonado logo após um agente ligar a ignição do carro estacionado na rua General Canabarro. As chamas não atingiram o tanque de combustível. O fato não foi divulgado na imprensa, mas um inquérito policial foi instaurado.

Segundo análises do engenheiro químico e perito criminal Cléber Muller, que na época do fato era diretor do Instituto Geral de Perícias (IGP), o artefato era de fabricação caseira, com etanol e gasolina dentro de uma garrafa pet, que seria semelhante ao explosivo coquetel molotov. Um relógio timer e uma bateria anexados ao artefato o davam características de uma bomba programada.

“O dispositivo funcionou”, diz Cléber. “O objetivo foi atingido, que era realmente incendiar e destruir a viatura. Ele foi colocado embaixo da roda, sob o eixo traseiro, na região direita traseira, exatamente onde fica o tanque de combustível. Para que esse fogo, iniciado por esse mecanismo, tomasse uma proporção que também atingisse o tanque de combustível”, detalha o perito.

Alguns dos ataques reivindicados pelo grupo

  • 22/04/2000 – Participação da depredação do relógio dos 500 anos em Porto Alegre.
  • 24/03/2017 – Pichações em muro do colégio Israelita, em Porto Alegre.
  • 11/07/2008 – Incêndio no consulado da Itália, no bairro Menino Deus em Porto Alegre.
  • 21/03/2008 – Incêndio em três carros no bairro Moinhos de Vento em Porto Alegre.
  • Abril/2008 – Ataque com coquetel Molotov ao Mc Donalds da rua Silva Só em Porto Alegre.
  • 06/10/2008 – Explosão de bomba caseira no parapeito de uma das janelas da Câmara Municipal de Porto Alegre durante período de eleições.
  • 04/04/2010 – Pichação e tinta vermelha jogada na fachada da igreja do Rosário no Centro de Porto Alegre.
  • Fevereiro/2011 – Incêndios em pelo menos dois carros de luxo, um deles no bairro Moinhos de Vento. Alvos escolhidos aleatoriamente, desde que fossem de alto valor. No entanto, foram protestos contra o atropelamento de ciclistas no bairro Cidade Baixa (fato ocorrido na mesma época).
  • 21/11/2011 – Fogo em dois pneus na frente do consulado do Chile, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
  • 15/11/2011 – Incêndio e vidraças quebradas do Banrisul na rua 24 de Outubro, bairro Moinhos de Vento em Porto Alegre.
  • 25/01/2012 – Incêndio no então diretório do PSDB, no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre.
  • Fevereiro de 2012 – Incêndio em veículo de luxo no bairro São Geraldo em protesto ao atropelamento do menino Gustavo da Silva Rosa, seis anos, na avenida Voluntários da Pátria, na Vila dos Papeleiros, em Porto Alegre.
  • 24/04/2012 – Incêndio criminoso no banco Santander localizado na rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre.
  • Junho/2012 – Ataque ao consulado peruano localizado no prédio do Edel Trade Centre, em Porto Alegre.